Lunáticos

Lunáticos
 Nilze Costa e Silva


Ser distraído é ser diferente, é ser minoria. Taxados de loucos, lunáticos, lesados, abestados, nunca merecemos a centésima chance, pelo menos. Abrir uma sombrinha no segundo andar de um edifício, mesmo que só esteja chovendo lá fora, pode até provocar risos. Mas para nós, que andamos no mundo da lua, lunáticos assumidos,
torna-se um verdadeiro estigma. 
Melhor que o dentista nem me tivesse lembrado da sombrinha esquecida. Foi só ele lembrar e eu acionar imediatamente a dita cuja. Fiquei lá, a esperar o elevador, enquanto todos me olhavam como se eu fosse um ser de outro planeta. Tentei buscar em mim algo de errado que estivesse chamando atenção. Foi quando olhei para o teto e descobri que não chovia no segundo andar. Enfrentei a todos e, de pirraça, mantive a sombrinha aberta, até o elevador chegar e eu perceber que ele era pequeno demais para nós duas- eu e a sombrinha. Resolvi fechá-la e descer mesmo pela escada, afinal eram só dois andares... 
Por falar em escada, esta parece me perseguir. Desisti de transar aquele barzinho legal debaixo da escada do meu antigo apartamento duplex, por uma simples derrapada verbal. O desenhista, que planejou a estante da minha biblioteca, chegou para receber o dinheiro do seu trabalho e eu aproveitei para lembrar o que já havíamos falado antes: 
- E aí, Aderaldo, quando é que a gente vai transar debaixo da escada? 
O outro se fez de desentendido e ficou a olhar alternadamente para mim e para o meu marido. Tive que me apressar e consertar em tempo hábil: "quero dizer, transar o barzinho de que te falei, aproveitando o espaço, debaixo da escada"... 
O pior de ser distraído é que pouca gente nos leva a sério, o que considero um desrespeito à diferença. Certa vez ia num ônibus lotado. Eu, pequenininha, não alcançava o cordão que alerta o motorista da nossa parada. E pedi a um moço mais alto que eu: 
- O senhor dá descarga aí, por favor? 
Ora, o gajo deve ter pensado que eu era uma louca ou uma tremenda de uma gozadora. Para complicar ainda mais, achei que devia balbuciar alguma coisa, embora percebesse o erro que cometera: "Obrigada! Ou, desculpe". Era desculpa ou obrigada? Já nem sabia mais.
O certo é que desci bem rápido, enrubescida, tendo a certeza de que alguns me olhavam ainda, curiosos. 
O desrespeito com os distraídos, a certa altura, chega a ser chocante. Certa vez em outro ônibus perguntei ao trocador: "quanto é esse ônibus?" A resposta foi infame:
"Ele não está à venda não, minha senhora!" 
Vestir roupa pelo avesso, descer do ônibus várias paradas depois do ponto, chegar num enterro e falar: "Olá, tudo bem?", não é nada. O pior é entregar um cheque assinado no caixa do banco e sair sem esperar o dinheiro; deixar o carro no estacionamento, ir para casa de ônibus, procurar o carro na garagem e ligar para polícia comunicando o roubo do veículo; colocar farinha ou sal no suco para adoçá-lo; quebrar um ovo com a força maior que a vontade de comê-lo e ver o conteúdo escorrer entre os dedos; colocar detergente na salada pensando ser vinagre; fazer conta no celular ou discar na máquina de calcular; procurar os óculos pela casa toda com eles na ponta do nariz; esquecer de pentear os cabelos e até de vestir as calcinhas. 
E de tirar também! 
Pois não é que eu fui um dia ao ginecologista fazer a minha prevenção, quando ele me entregou uma bata e falou que eu tirasse toda a roupa e a vestisse com a abertura para a frente. Enquanto isso, conversávamos, ele da sala e eu do banheiro. Fiz tudo o que ele mandou ou pelo menos julgava ter feito. Quando saí ele pediu para eu deitar na maca, na posição ginecológica. 
- O que é isso? - espantou-se. 
Não era nada não... Eu esquecera o principal: tirar a calcinha. A piadinha era inevitável: "Imagine se fosse pra outra coisa...." Gracinha, aquele doutor! Dei um sorriso amarelo e tratei logo de mudar de assunto. 
O pior mesmo da distração é que às vezes a gente não lembra de que é casado ou casada e sai por aí querendo se apaixonar; Lunática e nefelibata, esqueço às vezes que ando por linhas tortas e esbarro nas letras quase imperceptíveis do amor. O chão se evade sob meus pés!
Perco-me de mim, volatizo-me, esqueço de me procurar, de me encontrar, de me ver bem de perto e sinto até saudades do meu rosto. Certa vez minha imagem se perdeu no espelho, e eu fiquei lá, menina sempre, sem me atualizar no tempo e no espaço. Às vezes, nem lembro que cresci... 
Um dia esqueci até de morrer. E vou esquecer sempre, pois os distraídos, os lunáticos e os loucos nunca lembram a hora certa de partir e estão sempre perdendo o vôo.